Wednesday, 19 September 2007

Porque "amor é amor", meu amor."Há coisas que não são para se perceberem. Esta é uma delas.Tenho umacoisa para dizer e não sei como hei-de dizê-la. Muito do que se seguepode ser, por isso, incompreensível. A culpa é minha. O que forincompreensível não é mesmo para se perceber.Não é por falta de clareza. Serei muito claro. Eu próprio percebopouco do que tenho para dizer. Mas tenho de dizê-lo. O que quero éfazer o elogio do amor puro. Parece-me que já ninguém se apaixona deverdade. Já ninguém quer viver um amor impossível. Já ninguém aceitaamar sem uma razão.Hoje as pessoas apaixonam-se por uma questão de prática. Porque dájeito. Porque são colegas e estão ali mesmo ao lado. Porque se dão beme não se chateiam muito. Porque faz sentido. Porque é mais barato, porcausa da casa. Por causa da cama. Por causa das cuecas e das calças edas contas da lavandaria.Hoje em dia as pessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo deantemão, fazem planos e é mínima merdinha entram logo em "diálogo". Oamor passou a ser passível de ser combinado. Os amantes tornaram-sesócios. Reúnem-se, discutem problemas, tomam decisões.O amor transformou-se numa variante psico-sócio-bio-ecológica decamaradagem. A paixão, que devia ser desmedida, é na medida dopossível. O amor tornou-se uma questão prática.O resultado é que as pessoas, em vez de se apaixonarem de verdade,ficam "praticamente" apaixonadas.Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estúpido,do amor doente, do único amor verdadeiro que há, estou farto deconversas, farto de compreensões, farto de conveniências de serviço.Nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistascomo os de hoje. Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, deum rasgo de ousadia, são uma raça de telefoneiros e capangas decantina, malta do "tá bem, tudo bem", tomadores de bicas, alcançadoresde compromissos, banançides, borra-botas, matadores do romance,romanticidas.Já ninguém se apaixona? Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade semfim, a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doençaque é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito aomesmo tempo?O amor é uma coisa, a vida é outra.O amor não é para ser uma ajudinha. Não é para ser o alívio, orepouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, opronto-socorro da tortuosa estrada da vida, o nosso "dá lá um jeitinhosentimental".Odeio esta mania contemporânea por sopas e descanso. Odeio os novos casalinhos.Para onde quer que se olhe, já não se vê romance, gritaria, maluquice,facada, abraços, flores. O amor fechou a loja. Foi trespassada aopessoal da pantufa e da serenidade.Amor é amor. É essa beleza. É esse perigo.O nosso amor não é para nos compreender, não é para nos ajudar, não épara nos fazer felizes. Tanto pode como não pode. Tanto faz. é umaquestão de azar.O nosso amor não é para nos amar, para nos levar de repente ao céu, atempo ainda de apanhar um bocadinho de inferno aberto. O amor é umacoisa, a vida é outra.A vida às vezes mata o amor. A "vidinha" é uma convivência assassina.O amor puro não é um meio, não é um fim, não é um princípio, não é umdestino. O amor puro é uma condição. Tem tanto a ver com a vida decada um como o clima.O amor não se percebe. Não é para perceber. O amor é um estado de quem se sente.O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correratrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende.O amor é uma verdade. É por isso que a ilusão é necessýria. A ilusão ébonita, não faz mal. Que se invente e minta e sonhe o que quiser.O amor é uma coisa, a vida é outra.A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida. A vida que selixe. Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. Ama-sealguém. Por muito longe, por muito difícil, por muitodesesperadamente. O coração guarda o que se nos escapa das mãos. Edurante o dia e durante a vida, quando não esta lá quem se ama, não éela que nos acompanha - é o nosso amor, o amor que se lhe tem.Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e nãose ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado,viver sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz.Não se pode ceder. Não se pode resistir.A vida é uma coisa, o amor é outra.A vida dura a Vida inteira, o amor não.Só um mundo de amor pode durar a vida inteira. E valê-la também."Miguel Esteves Cardoso in Expresso

Nunca me eskeco de ti

3 comments:

Anonymous said...

......Amor.....

parece-me ser como tudo o resto, muda com o tempo. No entanto o "nosso tempo" parece ser sempre o melhor! Como diz a minha mãe, " Ka na minha altura não era assim, tinha de estar alguem presente, como por exemplo a minha irma ou irmao e ate mesmo a mãe, constantemente a avaliar o candidato, aquilho sim é que era namorar!!!". Tambem defendo que existe actualmente uma frieza da forma como trata-mos os nossos sentimentos, mas has-de ouvir os nossos filhos a comentar " Na kele time a cena éra curtida" ou qualquer coisa do genéro.....

Susana said...

Olá João,

Este é um post que leva à reflexão!
(...)
Adorei!!!

Orisa Ornelas said...

Este texto parece-me que se refere mais à PAIXÃO, louca e desenfreada, do que verdadeiramente ao AMOR. Acredito que a Paixão pode transformar-se em Amor. Sou de acordo que o amor de hoje em dia é muito prático e comodista. Vivemos numa sociedade tão preocupada com coisas que não interessam, parecemos todos uns cordeirinhos em fila, à procura de sucesso no trabalho, uma pessoa para amar, uma família, amigos... E nós? onde é que nós ficamos? quando é que paramos, olhamos para dentro e analisamos aquilo que realmente queremos e quem somos??? Acho que não sei o que quero e muito menos quem sou... mas quem sabe um dia lá chegue!

Beijinhos, Adorei o texto.